Cervejarias artesanais sofrem com falta de apoio governamental

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O mercado nacional de cerveja é dominado por praticamente três grandes empresas, que fizeram uso da fusão empresarial para se consolidarem no mercado como corporações praticamente imbatíveis. Porém, se por um lado as grandes indústrias dão prioridade ao volume produzido e seus lucros, ainda existem as chamadas cervejarias artesanais, que primam pelo sabor e a qualidade da bebida.

O diretor do Sindicato das Indústrias de Cervejas e Bebidas de Minas Gerais (Sindbebidas/MG), Marco Antônio Falcone, denuncia que o Governo Federal não oferece nenhum tipo de incentivo para essas pequenas indústrias, pelo contrário, tributa ainda mais o produto final, pois o seu custo é mais elevado, pela qualidade e pelos meios de produção menos sistematizados.

Ele revela que Minas tem ganhado espaço no setor pela diversidade das chamadas cervejarias artesanais. “Nós não somos os maiores produtores do Brasil, mas temos mais estilos de cerveja, mais rótulos que os outros estados. Nossos produtores fabricam rótulos diferenciados, com estilos ousados. Por isso Minas Gerais virou destaque nacional nesse ramo”. A produção das microcervejarias mineiras está estimada em torno de 400 mil litros por mês.

Aumento na tributação

O Governo Federal anunciou um aumento na carga tributária sobre a cerveja, o que significa que ela ficará mais cara. Os aumentos nos impostos giram em torno de 27%. Segundo especulam as associações da indústria, esse aumento será repassado ao consumidor. A previsão assinada pela Associação Brasileira das Indústrias da Cerveja (CervBrasil), Associação Brasileira de Bebidas (Abrabe) e Sindicato Nacional das Indústrias da Cerveja (SindiCerv) é de um aumento de até 5,24%.

Para o diretor do Sindbebidas/MG, o aumento na tributação não atingirá somente as grandes cervejarias, mas também as pequenas. “Esse reajuste incidirá sobre as microcervejarias, e de uma forma muito dolorosa. Já estávamos pleiteando uma diminuição no imposto para tentar sobreviver. De repente vem um aumento. É desastroso”, aponta.

A luta das pequenas

Proprietário de uma renomada cervejaria artesanal em Minas Gerais, a Falke Bier, Marco Falcone revela o descaso governamental. “Há um desincentivo impressionante, absurdo e até criminoso da União com relação ao nosso produto. As nossas cervejas pagam bem mais impostos do que as grandes cervejarias, apesar de serem artesanais e envolverem um custo bem mais alto de produção, até mesmo pela qualidade da matéria-prima. E no final, o imposto é mais caro, tentam nos matar de todas as formas”, diz.

Apesar de toda essa falta de incentivo, as cervejas artesanais apresentam bons resultados no quesito geração de empregos, segundo Falcone. “Nós empregamos bem mais mão de obra por litro produzido do que as grandes cervejarias”.

No ano passado, a Prefeitura de Nova Lima apresentou, na Câmara Municipal, um projeto de lei para incentivar a produção artesanal de cerveja. O intuito era transformar a capital do minério em uma espécie de Munique brasileira. Porém, para o diretor do Sindbebidas/MG, tudo não passou de uma estratégia eleitoreira.

“Foi uma jogada de marketing, te falo com toda sinceridade. Não existe nenhum tipo de incentivo. Quem regula a produção das pequenas cervejarias é o Ministério da Agricultura, na esfera federal, jamais um município teria jurisdição para esse tipo de iniciativa. Eu mesmo caí nessa falácia, propuseram nos ajudar na expansão da fábrica, mas nunca conseguimos sequer ser recebidos pelo prefeito”, diz.

Para Falcone, há uma discrepância muito grande e não existe nenhuma boa vontade governamental, até porque esse é um setor muito pequeno. “As microcervejarias brasileiras, somadas, não produzem nem 0,2% da cerveja produzida no país”, revela.

Produção nacional

Segundo dados do Instituto Lafis, o Brasil é o quarto maior produtor de cerveja do mundo, com produção anual de 9,02 milhões de litros. Os três maiores produtores são: China (30,61), Estados Unidos (23,02) e Alemanha (10,54).

De acordo com dados do SindiCerv, de 2007, o mercado nacional de cerveja é dominado por três grandes marcas: Ambev (68%), Schincariol (13%) e Kaiser/Molson (9%). As outras marcas totalizam 10% do setor. A indústria da cerveja no Brasil consolidou-se a partir da década de 30, quando Brahma e Antártica começaram a se destacar. Com visão futurista, as empresas desde aquela época praticavam o que hoje é comum no mercado: a aquisição de pequenas cervejarias para consolidação de um “império”. Assim, a Brahma, pouco a pouco, incorporou a seu grupo a Skol e a Caracu. A Antártica também seguiu os passos da até então rival, adquirindo a tradicionalíssima Bohemia.

A união das duas corporações, em 1999, resultou na criação da 5ª maior cervejaria do mundo, com domínio absoluto no mercado cervejeiro nacional. Ultrapassando as fronteiras, em 2004, foi anunciada a fusão entre a brasileira Ambev e a belga Interbrew, criando a INBEV, atualmente a maior cervejaria do mundo, responsável por 14% da produção mundial.

A empresa possui mais de 200 marcas em seu portfólio, está presente em 32 países e emprega aproximadamente 85 mil pessoas. Somente em 2004, ano da fusão, foi produzido um total de 202 milhões de hectolitros de cerveja e 31,5 milhões de hectolitros de refrigerante.

Mercados diferentes

Pelos dados produtivos apresentados pelas empresas que praticamente monopolizam o mercado cervejeiro, pode-se chegar à errônea conclusão de que as pequenas cervejarias são obsoletas. O diretor do Sindbebidas/MG, porém, afirma que são nichos diferentes, portanto não há disputa.

“São dois mercados. As grandes cervejarias, que priorizam o volume e apresentam produtos similares, basicamente a cerveja pilsen, e as pequenas cervejarias, que trabalham com um setor especial, normalmente as pessoas das classes A e B, que podem consumir uma cerveja mais cara, propriamente voltada para a gastronomia. As diferenças são muitas, por isso eu digo que praticamente não existe competição”, revela Falcone.

“Mesmo com todo o descaso do governo, o consumo da cerveja artesanal tem crescido cerca de 20% ao ano. Podia estar acontecendo, se houvesse apoio, uma explosão desse mercado, com a criação de mais microcervejarias, que só não saem do papel devido à carga tributária. A maldade não está nos represando, está nos atrapalhando”, confessa.

Por fim, Marco Falcone acredita que há uma luz no fim do túnel para essa falta de incentivo às microcervejarias. “Já vemos alguma luz na esfera estadual, a Secretaria de Fazenda do Estado tem levantado dados a fim de nos ajudar, o Ministério da Agricultura também tem mostrado boa vontade, inclusive nos submeteu uma possibilidade de alteração na legislação em relação à tributação. Temos uma boa perspectiva, mas ainda necessitamos de um esforço no âmbito federal”, conclui.

Fonte: Jornal Edição do Brasil

Comentários

  1. Marco Falcone disse:

    Pessoal, o jornalista se confundiu quando citou o Ministério da Agricultura, com relação à mudança da legislação, tem haver com regulamentação, e não tributação. No mais, sustento tudo o que disse.

  2. João Hulsen disse:

    Isso não é exclusividade das cervejas ou qualquer outro produto. Qualquer micro empresa deste País tem que sonegar de alguma forma imposto para sobreviver.
    O governo não incentiva nada, não tenta ajudar em nada. Eles trabalham para grandes indústrias e empresas multinacionais, e dão esmolas para os miseráveis.
    Quem está no meio, empregados e empregadores da classe média, baixa e alta, são explorados até não aguentarem mais.
    Acho muito bom que as cervejarias artesanais se unam e batalhem por melhorias, algo que não é comum por aqui, então, meus parabéns a todos, principalmente ao colega Marco Falcone, citado na entrevista.

  3. william disse:

    Como disse Benito Mussolini:

    “O fascismo deveria ser mais apropriadamente chamado de corporativismo, pois trata-se de uma fusão entre o poder do estado e o poder das grandes empresas”.

    Vivemos num fascismo?

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