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A era da cerveja totalitária

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A cerveja foi feita para unir as pessoas — e não dividi-las.

Chegou, enfim, o dia em que o mundo ficou dividido. Quem pensava de uma forma deveria, obrigatoriamente, procurar se enturmar com quem pensava da mesma forma, sem tirar nem por. Dissensos e traições eram severamente punidos. E como a cerveja faz parte da raça humana, também ela ficou dividida, cada qual com a sua tribo, cada uma com a sua ideologia. Ninguém se lembra ao certo como começou a divisão de gostos cervejeiros, mas o ancião de uma das castas lembra vagamente o dia em que, na mesa do bar, alguém fez cara de nojo pra uma cerveja que acabara de chegar: “Você vai tomar essa cerveja, com esse rótulo???”. Estava inaugurada a era da divisão. A partir de então, estava terminantemente vetado uma tribo beber a cerveja da outra.

O campo onde as guerras ideológicas eram acirradamente travadas era a internet. No reino tormentoso das mídias sociais, tinha-se que escolher de que lado se estava – e sempre haviam lados, muitos deles, um pra cada jeito de pensar. As mesas dos bares, antes o paraíso da troca de ideias, tornou-se uma vaga lembrança de um lugar então não mais frequentado. A geração da divisão não conseguia entender a estranha mania que as pessoas antigas tinham de debater pessoalmente. E ainda mais, absurdo dos absurdos, dividindo cervejas. E, como se não bastasse, naqueles tempos estranhos, mesmo com ideias diferentes, os “antigos” saíam das mesas com suas amizades intactas. Um absurdo!

Briga boa mesmo, coisa antenada, era pela internet. Guerra de textão entre castas se tornou prática diária. Alguém se manifestou contra o que você pensa? Ah, como é útil essa ferramenta chamada “bloqueio”! Bloqueia o sujeito, passa-se doravante a um não saber jamais o que o outro pensa. Um avanço civilizatório! Os espaços virtuais de cada turma se tornaram agitados, todos aplicados em espetar as demais castas e destruir reputações com blogs, vlogs, tumblrs, grumpls e kundrls.

A leitura diuturna desse material cibernético fez com que as pessoas se sentissem patrulhadas até mesmo em pensamento, de forma que o simples desejar íntimo de uma cerveja de uma outra tribo gerasse um tormento interno e um sentimento de culpa que nem tarja-preta resolvia. No fim, cada casta só podia tomar (e desejar) a sua própria cerveja. Pra quem era chegado em totalitarismo, era o paraíso.

Até que uma anomalia nesse sistema aconteceu. Num bairro obscuro de uma cidade obscura, surgiu um bunker no qual as pessoas de tribos diferentes ousaram se encontrar, levando as suas cervejas. Esses encontros se davam fisicamente mesmo, olho-no-olho, como nos tempos bárbaros. Todo mundo chegava de burca pra não ser reconhecido, já que a punição pra quem socializava em castas antagônicas era implacável. Lá dentro, o pessoal se soltava numa alegria completamente estranha para aqueles tempos engajados.

A menina do movimento negro adorava a Blonde, cerveja do movimento branco. O mesmo acontecia com os caras do movimento branco, que idolatravam a breja Black Panther, do movimento negro, e não entendiam porque diabos a Blonde não poderia ter um toquinho a mais de maltes escurecidos, que faziam toda a diferença.

A Che!, da galera disquerda, vinha embrulhada em miçangas, e foi lindo o dia em que, no ambiente abafado do bunker, ela e a Bolsomito, do pessoal didireita, dividiram a mesma mesa e as mesmas gargantas sedentas. A cerveja Gaynor, da turma LGBT, tinha um incrível dispositivo que, ao abri-la, minúsculas caixinhas de som começavam a tocar música de balada. No início, o pessoal do rock torceu o nariz, mas no fim deixou de frescura, caiu na dança e dividiu a sua Jagger – uma english pale ale – com todo mundo.

No meio de tudo chegavam os hopheads, com camisas contra a Lei de Pureza, os quais logo engatavam em um papo animado com os alemães, que tomavam a VeryBitter fazendo cara de espanto, enquanto se divertiam com os hopheads se refrescando gostosamente com a Wunderbar, a german pilsner que habitualmente traziam. E tinha muito mais cerveja, de muitas outras tribos, tantas que não caberiam nessa crônica.

Todo mundo bebendo a cerveja de todo mundo, todo mundo trocando ideia com todo mundo. As diferenças continuavam, mas era estranho como, pessoalmente, quem era muito diferente na internet se tornava mais igual do que se podia imaginar. Pensamentos diferentes eram contrapostos de maneira muito mais cordial e propositiva do que acontecia no Facebook. Todos eram convidados a discutir as cervejas e os problemas de todos. Não havia exclusão, assassinato de reputações, intrigas, indiretas, tudo era conversado na base do olho-no-olho e cerveja na mesa, como nos tempos de antanho.

A ideia geral, subversiva como pólvora, era que a cerveja tinha sido inventada para unir as pessoas, e não dividi-las!

A festa só terminava altas horas, quando acabava a bateria da Gaynor, a música cessava, as cervejas secavam, cada um vestia de novo a sua burca e saíam todos cabisbaixos do bunker para o frio silencioso e triste da madrugada e da vida moderna cibernética. Era, porém, uma tristeza contida. No canto da boca de cada um, sobrevivia um sorriso clandestino, a esconder a convicção de que na semana que vem tinha mais bunker, tinha mais festa.

Até que, um dia, o bunker caiu. Não se soube direito se foi alguém que falou demais, o certo é que o bunker foi descoberto pelas tribos, as quais, com tochas em punho, invadiram o local e carregaram, cada qual os seus rebeldes representantes, pelos cabelos, de volta às suas sedes, para que recebessem o devido reforço de doutrinação. O que era mais do que justo, porque era certo que uma casta jamais poderia discutir o problema da outra, já que uma não “vivia” o problema da outra. De forma que eram completamente intoleráveis aquelas conversas subversivas com cervejas diferentes.

E tudo então voltou pra internet, como sempre deveria ser.

“Olimpíadas da Cerveja” termina sem medalhas brasileiras

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wbc_japaneses

Realizada a cada dois anos, a edição deste ano World Beer Cup, apelidada de “Olimpíada da cerveja”, foi ingrata com as 58 cervejarias brasileiras concorrentes. Ao contrário do concurso de 2014, no qual o Brasil ganhou duas medalhas com a cervejaria Wäls, de Belo Horizonte, desta vez o país saiu sem prêmios da cidade de Filadélfia, na qual realizou-se a competição cervejeira mais importante do mundo.

Tragédia? Motivos para desespero? Estamos involuindo?

Estive lá, pela segunda vez, como um dos 13 jurados brasileiros selecionados para a competição (foram 260 no total), e teço breves comentários:

1) Trata-se talvez do concurso cervejeiro mais disputado do planeta, e a forma de aferir esse nível de dificuldade, antes de ver quem ganhou, é assinalar quem NÃO ganhou. Saíram de mãos abanando cervejarias incensadas como Dogfish Head, Allagash, Russian River, Brooklyn, Deschutes, e isso pra ficar apenas nas americanas. Ou seja, não ganhar medalha não é demérito pra ninguém, lembrando ainda que cada cervejaria só pode inscrever 4 rótulos.

2) A falta de medalhas brasileiras (e aqui vou chover no molhado) é um reflexo do nosso atraso em inúmeros aspectos. Basta uma rodada pela Expo Brew America pra se ter a ideia de como o mundo civilizado está a anos-luz na nossa frente, em equipamentos, soluções, técnicas, insumos, profissionalismo, legislação etc. E de como os nossos cervejeiros são heróis em trabalhar nessas condições desvantajosas. Empreender por aqui ainda é uma aventura arriscadíssima.

3) Palmas para os japoneses, que surpreenderam levando várias medalhas. É um outro país no qual devemos nos espelhar.

4) Palmas para as 58 cervejarias brasileiras que se inscreveram no concurso mais importante do mundo. Não fugiram do pau. Pagaram uma nota preta pra enviar as amostras, acreditaram nos próprios trabalhos. Estão de parabéns!

Agora é voltar às pranchetas, estudar, trabalhar, evoluir. Nos vemos em 2018, quem sabe em melhores condições pra levarmos nossas medalhas!

Cerveja na crise: A falsa explosão do mercado de cervejas artesanais

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ExplosaoArtesanais

Abro minha caixa de e-mails e, praticamente todos os dias, a história se repete: sempre tem alguma assessoria de imprensa me convidando para o lançamento de alguma cerveja artesanal brasileira. Quando começamos a fazer o site BREJAS, lá pelos idos de 2007, os lançamentos eram raros, a ponto de polarizar todas as opiniões do “meio cervejeiro” a cada vez que aconteciam. Hoje, eles ocorrem em um ritmo vertiginoso, virtualmente impossível de acompanhar.

A organização do último Concurso Brasileiro de Cervejas, ocorrido em março último, comemorou neste ano recordes de participações: aumento de 74% do número de rótulos inscritos, e assustadores 222% a mais de cervejarias participantes, em relação ao ano passado – incluindo nessa conta as cervejarias “ciganas”, das quais falo a seguir.

Tudo isso dá a falsa impressão de que o mercado de cervejas artesanais no Brasil está explodindo, prenhe de novidades, movimentando bilhões e se sobrepondo à a crise devastadora que assola o país.

Nada mais falso. Senão, vejamos.

Você se lembra do número aproximado de lançamentos de cervejas que aconteceram desde o começo do ano passado? E quantos desses rótulos ainda permanecem nas prateleiras? Não fiz um levantamento, mas chuto dizer que mais da metade dos rótulos de cervejas artesanais brasileiras lançadas hoje não sobrevivem ao teste do tempo e da economia.

Nos últimos meses, mais do que nunca, tem crescido muito o número de pessoas que apostam em “contract brewing”, aquele esquema no qual quem não tem fábrica aluga o espaço-tempo ocioso de quem tem pra produzir comercialmente as cervejas que já fazia em casa – as chamadas produções “ciganas”. Há pessoas de todos os tipos nesse perfil, mas o arquétipo é o do cervejeiro caseiro que quer vender suas crias, junta uma grana e investe numa produção “cigana” a fim de viabilizar o início de um negócio cervejeiro, muitas vezes sonhado durante anos.

Quase toda semana aparece algum amigo no Bar Brejas (do qual sou sócio) pedindo para que vendamos a sua produção cigana. Na maioria dos casos, se trata de uma boa cerveja, correta do ponto de vista estilístico. Quando pergunto o preço e faço um pequeno cálculo mental, concluo que serei obrigado a vendê-la ao meu cliente por um preço que, muitas vezes, tem que ser maior do que muitos rótulos (incluindo importados) já consagrados na cabeça dos consumidores. Eu explico que aqui tem 300 cervejas, a maioria mais barata e conhecida que a dele. Pergunto se ele têm algum argumento a mais de venda, um porta-copo que seja, pra chamar a atenção do cliente. Invariavelmente a resposta é não — na conta, não sobrou nada pra investir em materiais de marketing, nem mesmo um prisma de mesa. Em quase todos os casos, quando mesmo assim compramos a cerveja, ela sobra na prateleira.

Por algum motivo, muitas dessas pessoas acham que o mercado de cervejas artesanais está, sim, explodindo. Todo mundo tem certeza que vai ganhar um bom dinheiro. “Com os constantes aumentos de tributos e custos de produção, os ciganos vêm sendo muito prejudicados”, comenta um empresário do setor, com vários anos de experiência. “Por dia, eu recebo pelo menos três e-mails de pessoas que querem produzir aqui na minha fábrica, no esquema cigano. Aí eu converso, mostro os números e tento de todas as formas tirar da cabeça da pessoa, explicando o tamanho do risco. Está muito difícil entrar no mercado neste momento, até mesmo pra quem já tem uma fábrica montada. Hoje, até mesmo os distribuidores não estão pegando novos rótulos. O momento é de reflexão, não pra colocar a mão no bolso”, crava o profissional.

Não se trata aqui de responsabilizar os ciganos pela falsa impressão de explosão do mercado de cervejas artesanais no Brasil, ainda mais que há inúmeros outros fatores nessa conta, tantos que nem cabe nos alongarmos no assunto. Acontece que são eles, os ciganos, que vêm despontando ultimamente como os criadores da maioria dos rótulos que estamos vendo nascer. Outro ponto a constatar é que inúmeros deles têm obtido bastante sucesso comercial, com rótulos muito bem vendidos e de qualidade indiscutível. O problema é que não são apenas esses casos de sucesso que têm de ser analisados, ainda mais nesse momento.

Um fator crucial a ser considerado é a crescente ameaça dos grandes grupos cervejeiros, os quais têm lançado no mesmo segmento das “verdadeiras” artesanais vários rótulos com apelos gastronômicos diferenciados, em clara disputa de mercado com o setor cervejeiro artesanal. Essa disputa fica injusta quando se constata que as grandes cervejarias têm menos custos de produção em escala, além de contarem com várias benesses (incentivos fiscais e isenções tributárias governamentais) que uma pequena cervejaria ou uma cigana não possuem. Com produtos mais baratos e mais presentes nas prateleiras — graças ao gigantesco sistema de distribuição das “grandes” –, o mercado tem ficado realmente perigoso pra quem se aventura com pouca gordura financeira pra queimar.

Em tempos de crise, durante a qual o desemprego bate níveis históricos, o poder de compra achata a níveis nunca vistos e o consumidor que ainda possui fonte de renda pensa duas vezes antes de pagar mais de R$ 20 numa cerveja, chega o momento ideal para evitar-se aventuras financeiras nesse mercado. Quer investir? Faça contas, muitas. Feitas, refaça-as, minuciosa e insistentemente. Coloque absolutamente todas as variáveis nela, incluindo a talvez inevitável piora do cenário econômico para os próximos dois anos, pelo menos.

Depois de tudo isso feito, ainda quer investir no mercado de cervejas artesanais brasileiras? Boa sorte! Conte aqui com um amigo, que vai sempre torcer a favor.

Ressaca: a cura definitiva

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A receita científica

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Cerveja X Chopp: A diferença

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E não, não é a pasteurização!

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