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Westvleteren

Quinta-feira, 6/Setembro/2007

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Aos poucos, o bar, que estava vazio por volta das 10 da manhã, quando chegamos, começa a receber apreciadores. Gente de todas as idades, que chegam em silêncio respeitoso e se sentam nas mais de 50 mesas espalhadas pelo amplo salão. Silenciosamente permanecem, enquanto um dos dois garçons percorre cada mesa e anota os pedidos, que são feitos quase num sussurro. Depositada a papeleta com cada pedido no balcão, um sujeito com cara de poucos amigos desaparece lá dentro. Poucos instantes depois, sai com as garrafinhas escolhidas, todas sem rótulo. Há pompa e circunstância quando o sujeito deposita cada conteúdo em sua respectiva taça. Na mesa, os clientes acompanham toda a operação, sem perder de vista as taças, que chegam com o líquido. Feito o pagamento na hora, como é praxe nos bares europeus, inicia-se outro ritual. Um a um, os comensais (ou “bebensais”?), de olhos fechados, levam as taças ao nariz. O primeiro e minúsculo gole é sempre acompanhado de uma leve elevação das cabeças, como num discretíssimo êxtase. Silêncio e contemplação.

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Assim é a ambience do restaurante In de Vrede, bem ao lado da Abadia de Saint Sixtus, na localidade de Westvleteren, oeste da Bélgica. Ali, numa edificação austera de tijolos vermelhos, cerca de trinta monges cistercienses – ou “trapistas” – fabricam artesanalmente a que é considerara por inúmeros sites e especialistas do mundo todo a melhor cerveja do planeta.

A Ordem Trapista (oficialmente, Ordem dos Cistercienses Reformados de Estrita Observância) é uma congregação religiosa católica. Seus monges seguem o príncipio fundamental do ora et labora, vivendo em grande austeridade e silêncio. Fazem três votos: pobreza, castidade e obediência. Assim, a cerveja, fabricada em pequena quantidade no interior do mosteiro, é muito difícil de ser encontrada no mercado, já que os monges não a comercializam com o propósito do lucro, mas apenas para manter o funcionamento da própria abadia e alguns serviços de caridade. Em Westvleteren, esses religiosos basicamente rezam e fabricam a melhor cerveja do mundo. Nada mau.

Nossa aventura começa em Bruges, pequena e maravilhosa cidade medieval no norte da Bélgica que eu e Fabi, minha mulher, escolhemos para permanecer alguns dias durante o nosso mês sabático de dolce far niente na Europa. Peregrinamos pelos bares da cidade, notória pelos pubs exclusivos de cervejas (falarei disso num outro artigo) e experimentamos grandes rótulos belgas. Mas nada da Westvleteren. Perguntamos pelo néctar e só recebemos respostas negativas. Algo urgia ser feito. Resignada, a Fabi “aceitou” o convite deste bebedor. Iríamos, numa tarde qualquer, de carro a Westvleteren. Se a cerveja não chega ao bebedor, o bebedor que vá a ela.

Saímos de Bruges numa tarde ensolarada a buscar a cidade. Já tinha em mãos um mapa meio tosco da região. Em cerca de quarenta minutos chegamos à minúscula Veurne, de onde parte uma outra estrada vicinal que chega a Vleteren, esta dividida em duas: Oostvleteren e Westvleteren. Até aí foi fácil.

Depois de percorrermos a estrada entre Vleteren e Poperinge várias vezes, indo e voltando à busca de qualquer placa indicativa, nos resignamos com o fato de que simplesmente não há qualquer informação sobre a localização do mosteiro e do restaurante. Após perguntarmos em vários mercadinhos e postos da estrada, acabamos por pura sorte encontrando, quase totalmente encoberta pelo mato, uma minúscula placa branca a indicar: St-Sixtusabdij. Ao lado, brotava uma estradinha inacreditável, tão pequena que só cabia um carro.

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Foi nesse caminho que nos metemos, sempre jogando o nosso pequeno Peugeot 207 literalmente dentro do mato toda vez que algum outro vinha em sentido contrário. Como paisagem, apenas uma grande área exclusivamente rural. Facilitou o fato de, ao menos nessa estradinha, haver placas indicando o caminho da abadia a cada bifurcação.

A pequena Abadia de Saint Sixtus aparece de repente, e caso eu não tivesse visto antes fotos da fachada, passaríamos batidos por ela. Tire da mente as imagens das grandes igrejas encasteladas e com altas fachadas medievais de outras abadias que você já viu ou faz idéia. Saint Sixtus não é, definitivamente, como o mosteiro do filme “O Nome Da Rosa”. Pelo contrário. Trata-se de uma edificação baixa muito simples, ao estilo flamengo. Meia dúzia de janelões, uma grande porta branca permanentemente fechada e, sobre ela, três estátuas de santos não identificáveis. Nenhuma movimentação visível. Logo à frente, o In De Vrede, o qual se parece bem maior que a própria abadia, plantado num pequeno e bem-cuidado jardim.

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Eu e Fabi chegamos absolutamente secos e curiosos. Peregrinos que chegam a Meca. Andarilhos do Caminho chegando a Santiago. Decepção. Bar fechado! No jardim, dois homens conversando em flamengo diante de um regador. Nos olharam espantados quando perguntamos o motivo de tamanha impropriedade. “Hoje é sexta-feira. O bar não funciona de sexta-feira”. Nada a fazer senão rir do próprio infortúnio. Que diabos – ou santos – mandavam aqueles caras fecharem justamente na sexta? Mas deixe estar. Já sabíamos o caminho até ali, e isso ninguém poderia tirar da gente.

Dia seguinte, lá pelas nove da manhã. Naquela hora, até a Fabi, que não é cervejeira, estava decidida a vencer aqueles monges. Questão de honra. Pé na estrada. Aconteceu, enfim. Westvleteren 12, 8 e Blonde. Pra arrematar, outra 8, perfeita. O resto é êxtase, silêncio e contemplação…

Mauricio Beltramelli

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Mais imagens da “peregrinação”:

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 Bruin 8. Perfeita.

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Sim, estes são os preços… no In de Vrede. No Brasil, a garrafinha, quando há, sai por R$ 100,00.

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Este humilde escriba, em momento “eu não mereço tanto”.

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Santa Blond.

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Fabi e Westvleteren 12. Nirvana.

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Veja mais sobre este assunto clicando AQUI.

Cenas memoráveis

Quarta-feira, 5/Setembro/2007

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Esta história foi enviada de Genebra, na Suíça, pelo confrade brejeiro Michel Wagner e relata um encontro antológico que tivemos – pontualmente – em Bruges, na Bélgica, numa tarde qualquer de 2004. O que aconteceu depois foi uma festa pantagruélica de cervejas belgas abatidas.

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Naquele final de tarde de verão, sentado na praça central de Bruges, sorria como um menino que espera a turma do foot! Já estava lá há alguns 10 minutos, vinha de Amsterdam de trem.

Tinha marcado ali, ao lado da catedral às 18 horas, com os quatro malucos que também chegariam de trem de Paris e que eu havia encontrado dez dias atrás em Genebra numa memorável noite degustativa após terem atravessado metade da Europa com visitas pontuadas a bares e restô´s anotando cada cerveja degustada!

Sentado no degrau do chafariz central da praça, me divertia sozinho observando o vai e vem de estudantes, turistas e moradores locais que desenhavam a dança do final de tarde cotidiano desta cidade belga medieval e deliciosamente “malteada”. Naquele momento, ao mesmo tempo que atrasava meu desejo de degustar uma Garre que estava a apenas dois (DOIS) minutos após do chafariz do meetpoint, me deliciava com a idéia de explorar esta pequena “Roma da cerveja” com estes confrades muito bem informados daquilo que estavam bebendo!

Acontece que neguinho vinha de Paris!… E vinham com certeza de uma balada degustativa avassaladora e assim já me preparava para algumas meias horas de espera!

Mas para minha surpresa, logo após ouvir os sinos da catedral que tocam as notas de Mozart em suas badaladas, avisto no fundo da praça o primeiro confrade puxando sua mala com cara de neguinho na multidão procurando neguinho na multidão.

Foi impressionante e inesquecível assistir a chegada triunfante de Cuca, Guiba, Mau e Xu na praça central com expressões atingindo ao limite do lisérgico para não denunciar o grau de ressaca e as marcas da longa viagem que superaram esses Senhores! Seria quase uma heresia chegar “ressaquildo” no templo da cerveja bem fermentada, mas para esses estudiosos fazia parte de um cotidiano duro e corajoso, com escalas importantes e bem elaboradas!

Michel Wagner, de Genebra, Suíça, para o BREJAS.

(Este texto foi redigido ao sabor de uma St. Bernardus Pater 12, seguida da Westmalle Dubbel e uma Palm Speciale pra arrematar)

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Brejeiros Daniel Calichio (Cuca), Michel Wagner e Ricardo Sangion (Xu) em Bruges, na noite memorável relatada acima. Sim, a cerveja que está na mão do Daniel é uma Chapeau Banana Lambic…

BREJAS na festa de lançamento da revista BEER

Terca-feira, 4/Setembro/2007

Sabe aquela noite que você pede aos céus pra que jamais termine? Assim foi a festa de lançamento da primeira e única revista cervejeira da América Latina, a Beer, iniciativa mais que bem-vinda capitaneada pelo cervejólogo Xavier Depuydt.

A equipe de BREJAS marcou presença no Drake´s Bar & Deck com os confrades Mauricio Beltramelli, Daniel Calichio e Ricardo Sangion. No cardápio degustativo (babem!) Falke Monasterium, Eisenbahn (incluindo a champegnoise Lust), Colorado, Paulaner e grande elenco.

 O melhor, porém, foi a nossa companhia ao longo do evento. O grande Edu Passarelli, sempre antenado, nos apresentou a ótima Colorado India Pale Ale. Sabe “pouco”, esse Edu… Já Marco Falcone, proprietário da Falke Bier, é a simpatia em pessoa, tão maravilhoso quanto a cerveja que produz. Do ping-pong cervejeiro também participaram Fabiano Bellucci, beer sommelier do FrangÓ, Mariana Marçal, do staff da revista e o próprio Xavier.

Foto 1

Da esquerda para a direita: Renato (Tortula), Ricardo Sangion e Daniel Calichio (Brejas) Marco Falcone (Falke Bier) Edu Passarelli (Edu Recomenda), Mauricio Beltramelli (Brejas) e Fabiano Bellucci (FrangÓ).

Assim transcorreu essa noite de instituir feriado. Falta agora implementar a idéia do Edu Passarelli de fazer uma grande degustação a ser marcada em breve. Os confrades de Brejas, que de trouxas nada têm, já babam de ansiedade.

  • A revista

Com projeto gráfico e edição impecáveis, Beer superou as nossas melhores expectativas para a primeira revista especializada do gênero no país.  Reportagens ágeis, cuidadosas e de fácil entendimento mesmo para os cervejeiros de última hora. A fotografia é um show à parte.

Nesta primeira edição, reportagens sobre Duvel, Eisenbahn, viagens internacionais cervejísticas, degustações e muita, mas muita informação sobre cerveja. Imperdível.

Não dá pra deixar de parabenizar Xavier Depuydt pelo projeto vitorioso. Sua Beer é mais que uma ótima leitura. É indispensável.

Mauricio Beltramelli & Confrades do BREJAS

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Mais imagens do evento

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O balcão do Drake´s Bar & Deck com os rótulos para degustação.

Foto 3

Daniel Calichio (Brejas) e Mariana Marçal (revista Beer).

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Stand da Cervejaria Colorado (Ribeirão Preto)

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Stand Eisenbahn (e uma Lust carregada em triunfo).

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A capa da 1ª edição de Beer