Notas e rankings de cervejas: A justiça possível

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por Alexandre Marcussi*

Notas numéricas são um instrumento comum usado para medir desempenho, ainda mais em uma sociedade tão competitiva como esta em que vivemos. Não importa para onde olhemos, é difícil escapar delas.

Nem sempre foi assim, é bem verdade. Mas, hoje em dia, raros são aqueles que não estão acostumados a medir a qualidade ou a excelência de qualquer coisa por meio de notas. Aprendemos isso desde pequenos, na escola. Nosso destino escolar, a companhia dos mesmos amigos de turma no ano seguinte, o castigo impostos pelos pais, a recompensa dos professores: tudo isso dependia, invariavelmente, do maldito número impresso no boletim do final do ano. Ao sairmos do colégio, nosso destino universitário é definido pelo número implacável de nossa nota no vestibular. Mas como podem ousar transformar uma vida inteira de experiências e crescimento pessoal em um único número, frio e insensível?

A ideia parece estranha, mas, à força de tanto passarmos por essas experiências, acabamos nos acostumando a ela. Talvez por isso nos pareça bastante natural, assim que começamos a provar diferentes cervejas, compará-las por meio da atribuição de notas numéricas. A comparação por notas fornece a base de funcionamento do ranking do Brejas, bem como de outros portais cervejeiros mundo afora. O mesmo é feito com vinhos há muito tempo, então qual seria o problema?

Na verdade, existem imensos problemas subjacentes ao ato de atribuir notas a cervejas e compará-las a partir dessas notas. Problemas tão grandes que alguns sommeliers simplesmente se recusam a traduzir em notas seus julgamentos sobre cervejas. Neste artigo, pretendo apontar alguns desses problemas e discutir formas possíveis de lidar com eles.

Notas e aprendizado

Vamos começar falando um pouco sobre notas e avaliações no sistema educacional. Pode parecer que não tem nada a ver com nosso tema, mas trata-se de assunto já muito bem estudado com o qual entrei em contato em minha formação como professor, e que pode nos fornecer indicações e insights valiosos para discutir os rankings cervejeiros.

Nós professores sabemos o quanto qualquer nota – qualquer sistema de avaliação de desempenho escolar, na verdade – pode ser arbitrária. A aprendizagem é um processo gradual, multifacetado, marcado pelo desenvolvimento desigual de múltiplas competências e pela retenção de vários saberes por diferentes meios. Reduzir isso tudo a uma única nota, atribuída por uma prova aplicada num único momento de toda essa trajetória, é no mínimo questionável. Dividir a avaliação em vários momentos e defini-la por meio de vários meios diferentes (prova escrita, trabalho, apresentação oral etc.) já é uma melhora, mas ainda não elimina o fator principal: toda avaliação de desempenho depende intimamente do critério usado para avaliar e das expectativas do(s) avaliador(es) a respeito do resultado que ele pretende aferir. Isso é invariável.

Um exemplo pode nos ajudar a entender isso. Um aspirante a bacharel em Direito vai acabar desenvolvendo uma série de competências ao longo de sua formação: ele vai reter informações sobre legislação, vai aprender a comparar normas abstratas com casos concretos, vai desenvolver sua expressão em público, vai aprimorar sua forma de lidar com pessoas e clientes, vai conseguir situar sua prática num universo de implicações sociais. Na hora de obter uma nota, seu desempenho vai ser determinado não apenas pelo seu grau de aprendizado em todas essas áreas, mas também pelas expectativas de seus professores: se ele conseguiu reter uma enorme quantidade de informações sobre legislação, mas o professor tem como critério sua habilidade de se expressar em público de forma clara (por exemplo, ao avaliá-lo durante um seminário), ele poderá ter um péssimo desempenho. Não significa que ele não teve aprendizado: significa apenas que seu aprendizado não condizia com os critérios eleitos pelo professor para avaliá-lo. Todo avaliador encontra-se diante de um problema difícil: precisa eleger quais serão os critérios julgados imprescindíveis para um bom desempenho, e qual será a proporção e o peso relativo de cada um deles. Tudo isso implica uma certa dose de arbitrariedade.

Não existe sistema perfeitamente objetivo de avaliação. Toda avaliação irá, necessariamente, eleger alguns critérios como prioritários e dar relativamente menos ênfase a outros. Essa arbitrariedade da avaliação não pode ser eliminada – na verdade, é justamente ela que torna a avaliação possível. Sem a eleição de critérios, não conseguimos apreciar nem avaliar nada. Por isso, a tentativa de criação de métodos “objetivos” e “universais” de avaliação (empreendida por alguns sistemas educacionais e por órgãos oficiais de avaliação de desempenho) é uma tarefa vã.

Abaixo as notas! Abaixo as notas?

A conclusão lógica é a de que deveríamos então abolir completamente qualquer sistema de avaliação, correto? Não exatamente. Por mais que reconheçamos os problemas e dificuldades inerentes aos sistemas de avaliação, a alternativa de simplesmente não avaliar pode ser ainda mais perigosa. Numa sociedade complexa, burocratizada, em que diferentes concorrentes oferecem serviços alegadamente idênticos, a ausência de padrões de excelência e de métodos de controle de qualidade equivale a deixar todos completamente no escuro, à mercê de um sistema de confiança pessoal mais arriscado que qualquer bom sistema de avaliação.

A meu ver, a resposta consiste não em tentar eliminar a arbitrariedade da avaliação, mas em saber lidar com ela de forma consciente. A partir do momento em que reconhecemos, sinceramente, que a avaliação depende de critérios que não são absolutos, está aberta a porta para que possamos debater publicamente esses critérios, para que consigamos definir conjuntamente quais critérios devem ser prioritários para quais finalidades. Pois as avaliações têm objetivos práticos: definir quem entra e quem não entra em uma universidade, quem obtém e quem não obtém um diploma ou um cargo, quem vence e quem não vence um campeonato. Diferentes finalidades implicam, necessariamente, diferentes critérios de avaliação. Nesse ponto, o caráter arbitrário da avaliação deixa de ser um defeito e se torna sua maior força: se os critérios são sempre relativos, isso significa que podem ser discutidos e eleitos de acordo com as finalidades de cada avaliação. Bingo!

Rankings de cervejas

OK, vamos falar então em cervejas. O cervocurioso, que começa a pesquisar informações sobre rótulos específicos, pode ficar bastante intrigado ao comparar as notas e avaliações encontradas em diferentes lugares – seja na internet, seja em veículos da mídia especializada, seja nos resultados oficiais de campeonatos cervejeiros. Existe uma imensa discrepância na avaliação dos mesmos rótulos. Como é que pode uma mesma cerveja ser premiada com medalha de ouro em um campeonato internacional e, num ranking como o Brejas, exibir uma nota medíocre, mesmo diante de outras cervejas do mesmo estilo?

Obviamente, essas discrepâncias refletem as diferenças nas ferramentas de avaliação. A chave para conseguir interpretar esses resultados é entender os critérios de cada um dos métodos de avaliação. Algumas pessoas acreditam que rankings cervejeiros – como o Brejas ou os estadunidenses RateBeer e Beer Advocate – não merecem crédito nenhum, pois seus avaliadores não possuiriam as competências técnicas e a metodologia necessária a uma avaliação sensorial competente de cervejas. Outros, em desvairada reação, defendem esses rankings a partir da ideia de que os campeonatos da indústria contemplariam um número limitado de rótulos, e seus resultados seriam distorcidos por conchavos, favoritismos e patotas. Nem tanto ao céu, nem tanto à terra. Vejamos, pois.

O julgamento técnico e o julgamento não-oficial

Para discutirmos essa questão, é preciso antes entendermos os diferentes critérios usados em cada forma de avaliação. Veremos que, ancorados em critérios distintos, essas ferramentas de avaliação cumprem diferentes objetivos e podem ser combinadas para compor um panorama mais abrangente.

O julgamento técnico de um jurado num campeonato cervejeiro é altamente estruturado e obedece a regras muito específicas. Os jurados sempre trabalham com guias de estilos e com orientações que lhes dizem, ponto a ponto, o que aceitar, o que desclassificar e o que valorizar em cada um dos estilos nos quais as cervejas concorrentes se inscrevem. A satisfação pessoal nunca é o critério principal de um jurado de campeonato. Uma cerveja pode ser extremamente prazerosa, mas, se não cumprir os parâmetros definidos para o estilo naquele campeonato, isso não a impedirá de ser desclassificada. Especial atenção é dada a certos defeitos advindos de problemas de fabricação e acondicionamento (os ditos “off-flavors”) que podem até passar despercebidos à percepção de um leigo, mas que são cruciais para se estabelecer um padrão de qualidade entre especialistas. O resultado é que, em alguns casos, a cerveja vencedora de uma categoria acabará sendo simplesmente aquela que melhor se enquadrou na definição do estilo particular daquele campeonato. Às vezes, até, acaba sendo a “menor defeituosa” entre suas concorrentes, mas não necessariamente a “mais interessante”.

O julgamento leigo, ou simplesmente não-oficial, funciona de maneira um pouco diferente. Seu principal critério, na maior parte das vezes, é a satisfação pessoal. Uma cerveja que não se encaixe perfeitamente em um estilo, mas que seja muito prazerosa para o consumidor, quase sempre será bem avaliada fora de um campeonato (mesmo por um jurado com grande competência técnica em degustação e vasto conhecimento de estilos). Preferências altamente subjetivas (como uma inclinação por cervejas mais amargas, ou talvez pelo aroma frutado de certas variedades de lúpulo, por exemplo) vão ter um papel importante. Boa parte dos degustadores leigos sabe da existência de guias de estilos, e muitos inclusive os utilizam em suas avaliações, mas também podem saber que os critérios de diferentes guias podem divergir, e quase sempre optarão por aquele que mais irá agradá-los. Num campeonato, esse tipo de escolha ou preferência pessoal do jurado tem pouco lugar; numa avaliação não-oficial, porém, ela é perfeitamente cabível.

Além disso, existe uma diferença crucial de contexto de consumo. O jurado de um campeonato trabalha às cegas (sem saber que rótulo está degustando), em ambiente de alta concentração. O leigo, na maior parte das vezes, sabe qual o rótulo que está degustando, e o faz em um contexto descontraído, social. Na degustação informal, o que está sendo avaliado não é apenas e tão-somente o líquido dentro do copo, é toda a experiência da degustação: a emoção de beber pela primeira vez um rótulo raro ou envelhecido, o entusiasmo dos convivas e amigos de mesa, a perfeita (ou imperfeita) combinação com a comida, o glamour associado a certas marcas, a apresentação da cerveja (o design da garrafa e do rótulo, a forma de servir, o copo etc.), o local onde a cerveja é consumida – tudo isso influencia a avaliação. Por fim, em um ambiente descontraído e alegre, poucos degustadores irão manter o nível de concentração necessário para identificar off-flavors que, num campeonato, seriam cruciais.

Veja, não estou falando necessariamente do leigo quando falo em avaliações não-oficiais: também o degustador qualificado (que pode até compor o júri de campeonatos!), quando degusta socialmente, numa situação descontraída, será influenciado por todos esses fatores, os quais, num campeonato, são minimizados pelo contexto. Isso invalida a degustação não-oficial? Absolutamente não; mas é preciso entender que aquilo que um jurado de campeonato e um degustador descontraído avaliam são coisas diferentes. Critérios diferentes que servem a finalidades diferentes, como comentei.

Cruzar ou não cruzar estilos? Eis a questão

Existe uma segunda diferença fundamental entre funcionamento de campeonatos oficiais e de rankings abertos como o Brejas, no que diz respeito à atribuição da nota em si. Na maior parte dos campeonatos, os jurados irão pontuar as cervejas comparando-as apenas e tão-somente com suas concorrentes dentro de um estilo. IPAs serão comparadas apenas a outras IPAs, pilsners apenas a outras pilsners, e por aí vamos. Isso implica, naturalmente, que a escala de pontuação usada será relativa àquele estilo.

É muito raro que se comparem notas atribuídas a cervejas de estilos diferentes. Se, entre duas IPAs, uma recebeu nota 78 e a outra, nota 84, a segunda é considerada superior naquele campeonato. No entanto, se uma IPA recebeu nota 78, enquanto uma pilsner recebeu 91, nenhuma das duas é considerada superior à outra. São cervejas de estilos diferentes, e ponto final. Isso também significa que, em cada estilo, teremos uma escala de notas própria: a melhor American lager pode receber uma nota altíssima, equivalente à pontuação da melhor Russian imperial stout da competição. Em termos comparativos, porém, isso significa muito pouco.

 

Nos rankings abertos, pelo menos nos mais populares que temos hoje na internet (o RateBeer e o Beer Advocate, nos EUA, e o Brejas, no caso do Brasil), a pontuação não funciona assim. A escala de notas não é relativa a um estilo, mas é absoluta. Isso significa que podemos comparar a nota de uma American lager com a nota de uma Russian imperial stout. Esses rankings são construídos cruzando estilos. No entanto, como comparar cervejas de estilos diferentes? Sabemos que cada estilo traz uma proposta totalmente diferente; sendo assim, a comparação é feita com base em quê? No mais das vezes, o critério acaba sendo a satisfação pessoal. Se o estilo Russian imperial stout me agrada mais do que o estilo American lager, é provável que uma Russian imperial stout mediana tenha nota mais elevada do que a melhor American lager em minha avaliação.

De fato, rankings abertos tendem a privilegiar estilos de perfil sensorial intenso, que surpreendem os consumidores: cervejas mais amargas, ou mais alcoólicas, de maior corpo, impacto e complexidade. E como ficam as cervejas que se propõem a serem mais leves e mais fáceis de beber? Sim, pode até não ser justo, mas normalmente elas acabam tendo menor destaque. Para resolver isso, alguns rankings – como o RateBeer – disponibilizam ao mesmo tempo a pontuação geral (cruzando estilos) e a performance da cerveja quando comparada apenas com outros exemplares do mesmo estilo. Isso torna bastante claro o quanto os resultados divergem quando usamos critérios diferentes. Um exemplo: a japonesa Sapporo recebe nota 68 (de 100 possíveis) dentro de seu estilo no RateBeer (pale lager), contra míseros 9 pontos no ranking geral!

Mas essa tendência a privilegiar certos estilos não tira a objetividade dos rankings abertos? De certa forma, sim. Mas convém relembrar que não existe avaliação completamente objetiva. A ideia de que todos os estilos equivalem entre si pode soar tão subjetiva quanto a ideia de que certos estilos são mais interessantes do que outros. Não creio que haja aqui um “certo” e um “errado”, mas apenas dois sistemas de avaliação com critérios diferentes: a adequação a uma proposta historicamente consolidada, no caso dos campeonatos, e a surpresa e a satisfação pessoal, no caso dos rankings abertos.

Maturidade no mercado cervejeiro

O mais importante é entender para que se presta cada tipo de avaliação. Uma vez compreendido isso, os diferentes critérios e sistemas podem perfeitamente conviver sem distorções, sem que uma avaliação pareça contraditória com outra ou possa anular sua relevância.

Campeonatos servem para estabelecer padrões de excelência em propostas sensoriais consagradas. Existe uma longa tradição cervejeira na qual as cervejarias e os mercados se apoiam, consolidada nos estilos. Essa tradição é o ponto de partida dos campeonatos, e o trabalho das cervejarias é avaliado de acordo com sua capacidade de se inserir nesses elos com o passado. A chancela de uma avaliação técnica é o atestado de que aquela cerveja se enquadra com competência em uma tradição e em uma proposta gastronômica específica, que teve uma relevância histórica. Quer você goste dessa proposta, quer não goste. Pode ser que uma determinada Münchner helles seja mais seca e amarga e que tenha perfil de lúpulo mais evidente do que outras. Pode ser isso que te agrade mais do que as demais cervejas do mesmo estilo. Contudo, a proposta desse estilo é pender mais para o sabor do malte, em contraste com as pilsner alemãs. Existe um lugar para cervejas mais maltadas no espectro de sabores e propostas gastronômicas das lagers europeias claras e leves: esse lugar é ocupado pelo estilo Müchner helles. Os campeonatos atestam até que ponto as cervejarias continuam capazes de ocupar esses lugares legados pela tradição.

Contudo, nem sempre isso é um termômetro adequado do entusiasmo do mercado consumidor. Um estilo consagrado pela tradição histórica pode ter uma proposta gastronômica específica e perfeitamente coerente, mas não necessariamente continua fazendo a cabeça dos apreciadores de cerveja atualmente. O mercado consumidor, ainda mais em um momento histórico como esse que vivemos globalmente, de renascimento das cervejas artesanais, busca produtos inovadores e surpreendentes. Valoriza mais a inventividade do que a tradição consolidada. Às vezes, chega até a se orientar por modismos efêmeros, por gostos que se desgastam rapidamente e perdem aquele “brilho” inicial, sendo rapidamente substituídos pelo novo “estilo do momento”. Nesse sentido, é compreensível que o consumidor comum se deixe influenciar por esse entusiasmo coletivo e acabe avaliando de forma menos positiva algumas cervejas de estilos clássicos, especialmente quando elas apresentam propostas gastronômica mais simples e diretas – como é o caso da Sapporo, coitada, com seus miseráveis 9 pontinhos no ranking geral.

Jurados oficiais de campeonatos, sommeliers, degustadores profissionais e produtores têm voz garantida na indústria cervejeira. As cervejarias sabem como podem obter seus pareceres e os procuram para aprimorar seus produtos a partir de um ponto de vista técnico. Com o consumidor comum, porém, a coisa é diferente – a comunicação é bem menos próxima e transparente. Os rankings abertos fornecem um lugar onde esses consumidores podem trocar experiências, exprimir suas preferências e consolidar gostos e tendências. Cervejarias que têm um bom relacionamento com o consumidor já aprenderam que podem se valer desses rankings para entender melhor seu mercado consumidor e ir ao encontro de suas demandas. Rankings como o Brejas, o Beer Advocate ou o RateBeer, em suma, funcionam como excelentes termômetros do mercado. Pode ser que o número de participantes ativos seja uma amostragem pequena diante de todo o mercado consumidor, mas trata-se de uma amostra ativa e influente no estabelecimento de novas tendências de gosto e consumo.

Os campeonatos valorizam a consistência e as propostas sensoriais consagradas, mas às vezes demonstram um certo conservadorismo (mais ou menos acentuado dependendo do perfil e das categorias de cada campeonato). Os rankings abertos, por sua vez, valorizam a novidade, o glamour, a inovação, mas podem acabar vítimas de um modismo ingênuo. Um mercado maduro precisa saber manter as duas atitudes: a consistência com propostas consolidadas (são elas que garantem o entusiasmo renovado de apreciadores ao longo dos anos e das gerações) e, ao mesmo tempo, o incentivo à inovação, a sintonia com os anseios do consumidor comum. Isso exige que haja lugar garantido tanto para as avaliações oficias quanto para os rankings abertos. E também exige que tenhamos a maturidade de dar-lhes a consideração devida e saber para que finalidades podem ser utilizados. A César do que é de César. Nada a mais, nada a menos.

A questão da confiabilidade

Encerro esta matéria comentando uma questão que normalmente é levantada ao se discutir a pertinência da avaliação leiga de cervejas: a confiabilidade das informações sensoriais geradas por degustadores amadores. De fato, trata-se de um nó fundamental. Degustadores amadores normalmente tentam emular a linguagem e os critérios usados pelos profissionais, mas nem sempre possuem a formação e o domínio desses instrumentos. O resultado é aquele que já sabemos: as informações que encontramos nos rankings abertos de cervejas normalmente são imprecisas e, em alguns casos, simplesmente equivocadas. O vocabulário sensorial tende a ser usado sem muito rigor, e a inabilidade em identificar positivamente certos atributos pode levar a erros graves, como apontar defeitos inexistentes em uma cerveja ou responsabilizar o produtor por problemas que são do transporte ou do revendedor.

As informações disponíveis em rankings online de cervejas são de pouca utilidade didática e, nos piores casos, de pertinência ética discutível. Isso significa que devemos simplesmente ignorá-las? Neste caso, estaríamos cometendo o proverbial engano de jogar fora a criança junto com a água do banho. Esses dados podem não ter precisão técnica, mas devem ser tratados da mesma forma que um médico trata um sintoma: como um sinal de algo ainda a descobrir. Pode ser que o diagnóstico do avaliador leigo seja equivocado, mas isso não significa que o sintoma não exista. O coro uníssono dos consumidores indica sempre algo que vale a pena para o produtor “decifrar”. Por que sua cerveja está tendo uma aceitação tão positiva ou tão negativa? Será uma nova tendência de mercado que começa a se delinear sob a superfície desses comentários? Será que não existe realmente alguma coisa “fora do lugar” em uma receita que recebeu críticas quase unânimes?

À falta de treinamento específico soma-se a desinformação, ampliando ainda mais o problema da credibilidade dos rankings. Redes sociais e blogs na internet pululam com informação descontextualizada ou simplesmente incorreta. Algumas ideias equivocadas são reiteradas com tanta frequência que se tornam verdadeiros mitos cuja existência é muito difícil de eliminar. Não diz a sabedoria popular que uma mentira repetida muitas vezes transforma-se em verdade? Quem nunca ouviu falar que a Brahma produzida em Agudos é melhor do que a da Jacareí por causa da água? Se temos posse de informações técnicas corretas, sabemos que isso não passa de um mito, já que a água para fabricação de cervejas é padronizada entre as diferentes plantas fabris. Mas a informação continua por aí, circulando. E não é só essa mitologia do “bebedor comum”: existem também muitos mitos cercando as cervejas artesanais, informações que parecem coisa “de entendedor”, mas não passam de versões mais “avançadas” de mitos como o da Brahma de Agudos. Certas informações incorretas criadas dentro de rankings abertos, inclusive, acabam viciando as avaliações e o ranking de forma global. Se uma cerveja é avaliada de determinada maneira pelos primeiros usuários, suas opiniões – independentemente de serem corretas ou não – tendem a se repetir nas avaliações seguintes, pois elas são usadas como referências pelos usuários que vêm na sequência.

Pior que isso tudo, a meu ver, é o fetichismo, mal do qual muitos usuários de rankings acabam sendo vítimas. É preciso considerar que sites como o Brejas, além de ferramentas para compartilhar opiniões e informações, também já se constituíram como comunidades sociais. Seus usuários buscam visibilidade e aceitação, como em qualquer outro meio social. Às vezes isso pode levar a disputas de egos, esnobismo e ostentação. Alguns usuários tentam se enaltecer por ter degustado rótulos raros, caros e/ou de difícil acesso. Isso “contamina” a comunidade com uma sensibilidade de fetichismo, uma necessidade que todos sentem de “não ficar para trás”, de comprar os rótulos caros, de beber as mais disputadas, mesmo pagando preços exorbitantes. Claro que os especuladores de rótulos (infelizmente, eles já existem…) exultam nesse fetichismo.

Mas o preço pode ser alto, não só do ponto de vista financeiro, mas também emocional. O fetichismo torna-se muito frustrante quando o consumidor se dá conta de que gastou recursos excessivos (não só financeiros, mas também emocionais) por uma quimera. Pior que isso, ele nos impede de apreciarmos com franqueza e transparência nossas cervejas: às vezes podemos ficar tão intoxicados com a aura de glamour de certos rótulos que nos tornamos insensíveis aos seus defeitos – e também às inúmeras qualidades de outras cervejas menos supervalorizadas. Quem perde com isso, no fim das contas, é o próprio consumidor, aprisionado a suas próprias fantasias e incapaz de sentir a alegria de redescobrir o mundo à sua volta com seus próprios sentidos.

Claro que um mercado consumidor saudável é algo que se conquista a longo prazo. O boom das cervejas artesanais no Brasil nos últimos 5 anos atraiu muitos aproveitadores interessados em faturar em cima da desinformação e do fetichismo. Mas outros profissionais e amadores continuam fazendo seu trabalho de formiguinha de combater essa desinformação para consolidar uma cultura cervejeira mais saudável neste país. O amadurecimento dos blogs especializados e deste ranking do Brejas é um sinal desse processo que oxalá esteja apenas começando. Para que ele dê seus melhores frutos, avaliadores leigos e profissionais deverão aprender a conviver e respeitar seus respectivos espaços com ética e com a consciência de que um mercado maduro precisa de espaço para todos. No fim das contas, a recompensa também é de todos.

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alexandremarcussi
* Alexandre Marcussi é sommelier de cervejas pelo SENAC/Doemens Akademie e historiador especializado em História Cultural. Acredita que a cerveja e a cultura se complementam deliciosamente, e põe este princípio em prática em seu blog O Cru e o Maltado

 

 

Comentários

  1. Texto extremamente lúcido, a situar com precisão os lugares no mercado cervejeiro tanto dos rankings quanto dos concursos cervejeiros.
    É interessante observar, nesse pensamento, que a cerveja mais adorada do mundo (a Westvleteren Abt 12) sequer é inscrita pra concorrer em concursos de cerveja. Não possui nenhuma medalha. Prova maior da importância dos rankings cervejeiros.
    Parabéns, Marcussi!

  2. Zé Marcio disse:

    Parabéns ao Alexandre pelo texto.
    Trouxe a luz vários pontos cruciais que vem sendo discutido a exaustão em blogs e fóruns nos últimos dias.
    Estamos vivendo um momento incrível para a cerveja artesanal nacional. Não podemos deixar que brigas de egos, mesquinharias, TI-TI-TI´s e MI-MI-MI´s se tornem mais importantes e mais comentados do que a proliferação da cultura cervejeira.
    Em tempos em que Beer Troll´s ganham cada vez mais espaço, o Brejas faz um trabalho fenomenal para o cenário cervejeiro nacional, seja através dos textos ou do ranking.
    Soam bizarras algumas afirmações vistas em blogs e fóruns, desqualificando cervejas, cervejarias e cervejeiros. Vemos muitas vezes atitudes de desrespeito e desconsideração a todo o trabalho, esforço e suor colocado no desenvolvimento de um rótulo. Soam ainda mais bizarras as justificativas e explicações usadas para menosprezar prêmios de reconhecimento mundial que são ganhos pelos mesmos rótulos, após enfrentarem viagens longas que tendem a prejudicar e muito a qualidade sensorial do produto.
    As discussões sobre a “validade” de prêmios ou concursos ganhos por cervejarias me parece muitas vezes uma forma de expressar uma certa dose de dor de cotovelo por não estar diretamente envolvido no processo e só observá-lo a “um blog/fórum de distância”.
    Essas atitudes mostram como é longo o caminho que ainda temos que avançar…
    Parabéns ao Alexandre Marcussi, ao Maurício Beltramelli e ao Brejas por ajudarem a trilhá-lo.

  3. mauro disse:

    Gostei e estou de acordo com seu texto,com diz a fala popular”Ado,ado,ado,cada um no seu quadrado”,ou melhor cervejas de estilo diferentes,são produtos diferentes,eu mesmo ao avaliar uma lambic fruit detestei,porem dentro do seu estilo era uma boa cerveja,as malzbier são execradas pela maioria,porem tem quem as apreciem,meu caso por exemplo,por isso acho que a melhor avaliação é a satisfação pessoal.

  4. Pois é, Zé Marcio, estamos observando um certo “entrincheiramento” de opiniões no meio cervejeiro sobre o qual vale a pena pensar um pouco. Claro que a liberdade de opinião é sagrada, e um meio de opiniões controladas não vai ajudar em nada. Apesar disso, parece-me que algumas pessoas fazem certas críticas – seja aos rankings, seja aos campeonatos – pelos motivos equivocados, sem compreender bem o papel de cada um.

  5. Zé Marcio,
    Acho que, com o crescimento desse mercado, cada vez mais as opiniões divergentes serão discutidas. O que difere os bons debatedores dos “trolls” mal-intencionados é o nível e a forma dessas divergências.
    Aqui no Brejas debatemos ideias, com nível aceitável de educação, decência e civilidade, mesmo que sejamos divergentes. E de cara limpa! Não é porque alguém diverge da minha opinião é que tenhamos que ser inimigos (como tem gente, aliás, que precisa entender isso!!!).
    Um abraço e muito obrigado pelos elogios!

  6. Wellington disse:

    Parabéns Alexandre.

    Estamos precisando de mais lucidez em tempos de total desinformação!
    O que vemos hoje, são pessoas completamente desinformadas transmitindo informações, sem se dar conta de como isso atrapalha aquelas (pessoas ou blogs) que se especializaram neste assunto. Que devemos fazer nós que queremos a informação certos de que não estaremos caindo numa cilada? Seguir blogs e portais que tenham no mínimo a transparência de publicar esse tipo de informação, mesmo sabendo que são alvos do mesmo!

    Parabéns não só ao Alexandre Marcussi pelo excelente texto, mas também ao BREJAS, que dia após dia vem nos informando e tirando dúvidas e não adicionando cada vez mais!

    Ps. Sei que fugi um pouco do assunto do texto, mas levei como desabafo!

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