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La Trappe: como é a única abadia da Holanda que produz cerveja trapista

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por Gustavo Marsan


Em fevereiro, aproveitei um passeio em busca das melhores cervejas da Europa para dar um pulo na abadia da La Trappe. Saí de Amsterdã, de trem, e fui até Tilburg, mais ao sul. A viagem é fácil e não muito demorada. E, claro, valeu a pena demais.

Ao chegar em Tilburg, cidadezinha simpática de cerca de 200 mil habitantes, toma-se um ônibus para ir à La Trappe. Em poucos minutos você já está completamente afastado da zona urbana e presencia cenas bucólicas como esta. 

A entrada é bem peculiar e em nada parece uma cervejaria.

(foto 1) Entrada lá no fundo

(foto 2) Foto da entrada

Já lá dentro, você dá de cara com um moderno casarão, onde é o bar e restaurante.

(foto 3) Foto do Casarão

 

Como ainda não estava na hora da tour guiada, resolvi esperar degustando algumas das cervejas. Um ponto muito interessante a notar é que o bar/restaurante já estava cheio por volta de 11h da manhã e a média de idade deveria estar por volta de 50 anos. Muito legal ver todos aqueles senhores e senhoras conversando animadamente e degustando vários tipos de La Trappe!

A visita guiada é um tanto quanto tradicional e até simples, pelas instalações. Mas o guia (um dono de bar próximo) dá ótimas explicações e se aprofunda nas curiosidades, com muito bom humor. Entramos no pátio do mosteiro, depois em uma espécie de local de armazenagem dos barris de Oak Aged, assistimos a um vídeo sobre o processo de fabricação, visitamos os tanques de bronze, entre outras coisas mais. Na verdade, o mais interessante ali para quem já conhece este tipo de produção é o clima calmo, é estar ali naquele local sagrado para muitos amantes de cerveja.

(foto 4) Foto patio

Depois de toda a visita, pausa para o almoço caprichado e mais algumas La Trappes para aproveitar todo aquele clima. Afinal, não dá pra sair dali sem provar todas, não é? Ainda mais por um preço tão acessível. É só olhar para o cardápio e ficar triste com os preços praticados no Brasil.

(foto 5) foto do prato

Na saída, ainda há uma lojinha com tudo lembrando a La Trappe, desde todas as cervejas, em diversos formatos, passando por ímãs, copos, toalhas e outros souveniers. Destaque também para os queijos, pães e chocolates produzidos pelos monges.

(foto 6) foto monge atendendo na loja

Se alguém quiser ir, saiba que vale muito a pena. E, se necessitar mais informações, pode me procurar por e-mail em [email protected]. Terei o prazer de ajudar!

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Gustavo Marsan é usuário aqui do Brejas

(foto 0) minha foto com o copo

23 motivos que explicam os altos preços das cervejas artesanais brasileiras

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money-beer

Por Leonardo Sewald * (com revisões de diversos profissionais do setor cervejeiro)

Por que a cerveja artesanal tem um preço tão alto no Brasil?

Essa pergunta tem uma resposta complicada e longa. Para ajudar a esclarecer um pouco a questão, escrevemos um artigo, que foi apresentado durante a mesa redonda dos Blogueiros Brasileiros de Cerveja no Festival da Cerveja de Blumenau 2013.

Cerveja artesanal está na moda hoje no Brasil. Microcervejarias novas surgindo, novos restaurantes aparecendo todo mês, a massa de profissionais envolvidos no meio cervejeiro aumentando, homebrewers crescendo… Ao que tudo indica, um mercado que está crescendo. E de vento em popa.

É inevitável a comparação com outros mercados de cervejas artesanais mundo afora, como Inglaterra, Alemanha, Bélgica e, especialmente, Estados Unidos. Pois é, sobre isso, tenho algumas coisas a dizer. Nem todos irão concordar com o que eu digo aqui. Tudo bem com isso, é o debate que nos faz crescer enquanto seres humanos, já diria Sócrates.

Vamos direto ao ponto: podemos comparar sim a nossa realidade com a de outras nações cervejeiras, acho inclusive que devemos fazer isso para nos informarmos, adaptarmos as transformações à nossa realidade e aprendermos com os erros dos outros. Mas com os pés no chão.

Temos que comparar nosso mercado cervejeiro aos mais desenvolvidos, como o dos EUA.

Temos que comparar nosso mercado cervejeiro aos mais desenvolvidos, como o dos EUA.

Transformações são lentas. O Brasil recém começou uma revolução cervejeira, coisa de cerca de 10 anos com o ressurgimento das primeiras microcervejarias no país. E, como no caso de outras nações cervejeiras, isso iniciou nas mãos de poucos pioneiros que tentaram (e o fazem até hoje) de todas as formas mudar a nossa realidade de mercado em um ambiente inóspito: um país onde o consumidor ainda desconhece muita coisa no que diz respeito à cerveja; impostos são abusivos; não existe colaboração; logística é um pesadelo; o ponto-de-venda não entende o produto com o qual está trabalhando, dentre outros fatores prejudiciais que irei descrever mais adiante.

Estamos juntos curando uma miopía histórica da população. Mas nós só iremos conseguir fazer isso da melhor forma com qualidade e informação. Quem já me conhece sabe que eu sempre bato na mesma tecla da qualidade, palavra tão banalizada por grandes empresas que chega a ser sem graça de usar. Mas é ela que importa. Estamos resgatando o real sentido da palavra qualidade: no processo produtivo, na interação com o consumidor, na arte, na história. Sem qualidade não há cerveja artesanal que resista.

A questão que talvez esteja faltando para muitos é a informação. Uns possuem mais dela do que outros, e isso é normal. O ponto que vejo hoje é que ainda existe muita desunião no setor. Seja esta desunião entre as cervejarias, entre pontos-de-venda, entre sommeliers e juízes BJCP. Muita gente brigando ao invés de trabalharem juntas. Isso para mim está arraigado no fato de que as pessoas, por não terem toda a informação na mão, acabam emitindo opiniões pouco embasadas e, infelizmente, injustas.

No Brasil tem muita gente brigando ao invés de trabalhar junto.

No Brasil tem muita gente brigando ao invés de trabalhar junto.

Quem já abriu um negócio, foi pra guerra ou passou por uma situação de vida ou morte já falou a célebre frase: “só quem estava lá sabe…”. Isso não precisa ser assim. Na realidade, quanto mais fugirmos disso e compartilharmos as nossas aflições, melhor será para todos, os que estão no lado da produção podem com isso construir de forma coletiva uma solução adequada para os problemas enquanto os que estão no lado da divulgação podem disseminar o conhecimento embasado ao alcance de todos. Em suma, podemos nos aproximar uns dos outros. OK, isso pareceu frase de grupo de auto-ajuda…

Vou dar um exemplo que acho que seja de interesse geral: hoje se fala que a cerveja no Brasil é muito cara. Pra vocês verem como as coisas não são tão simples, vocês perceberão que nunca há apenas um vilão e a coisa é mais complicada do que parece.

Vocês sabiam que, além de impostos altos, o Brasil é um dos países com a logística mais cara do mundo? Nos comparando com países de dimensões continentais como os Estados Unidos, onde 90% dos transportes pesados para portos no país são feitos via trem ou balsas, aqui no Brasil temos menos da metade deste valor percentual (33% – dados da Informa Economics). Aqui, utilizamos estradas, porque o Brasil está bem longe da quilometragem de trilhos de trem quando comparado aos EUA (Os EUA é o país com maior quilometragem de trilhos no mundo, com 226.427 km. O Brasil tem 29.000km). Nosso país tem estradas péssimas, pedágios caros e um governo ciente do problema que é ótimo em planejar – mas péssimo em executar. Para ajudar a desmistificar a questão do preço e informar a todos, elaborei, com a ajuda dos meus queridos colegas de profissão, este guia sucinto que fala sobre o custo da cerveja no Brasil. De maneira alguma iremos esgotar a discussão em cima de cada ponto aqui; isso é apenas uma maneira de informa-los sobre o meio inóspito em que nós, cervejeiros, estamos inseridos e tentando de todas as formas fazer com que um produto de qualidade chegue nas mãos de vocês. Talvez assim, com as informações corretas, as pessoas passem a entender melhor a nossa situação e nos fornecer mais apoio para que a indústria cervejeira no Brasil cresça e deixe sua marca permanente.

Brasil: País atrasado em vários aspectos, encarecendo todos os bens de consumo. (Imagem: Blog do Juca)

Brasil: País atrasado em vários aspectos, encarecendo todos os bens de consumo.
(Imagem: Blog do Juca)

 A – armazenamento

Quando se produz algo, é preciso de espaço para armazenar o produto finalizado. Apesar de termos dimensões continentais, a esmagadora maioria dos produtores, sejam eles do setor agrícola ou da indústria, ainda dependem de terceiros para armazenagem dos seus produtos. Novamente comparando com um país grande como o nosso, os EUA: metade das operações de armazenamento do setor agrícola americano está localizada nas próprias fazendas. Aqui no Brasil, apenas 6% da produção agrícola do país é armazenada no local onde foi cultivada, sendo que ela é transportada (leia-se: impactando aí um custo logístico) para um terceiro que a armazena e que, obviamente, cobra por isso. Quem paga, no final das contas? O consumidor, lá na ponta… Mas porque diabos estou falando de agricultura? Lembrem que uma cervejaria utiliza malte e lúpulo, onde o malte, mesmo em grande parte sendo produzido no Brasil, ainda custa caro; o lúpulo, por ser importado, mais ainda.

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Roteiro cervejeiro de Lisboa

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por Alexandre Marcussi*

Em agosto e setembro de 2012, estive em Lisboa para um estágio profissional e aproveitei a visita para conhecer um pouco mais a cena cervejeira local (veja aqui alguns comentários sobre as cervejas portuguesas). Portugal não oferece exatamente um cenário exuberante para o apreciador de cervejas. De fato, os portugueses estão acordando apenas lentamente para os prazeres que o mundo cervejeiro é capaz de proporcionar. Como resultado, é preciso garimpar um pouco para descobrir os picos locais. Como, felizmente, eu tinha dois meses e contei com a ajuda de alguns amigos cervejeiros (em especial Fernando Cardoso, do blog À base de cerveja, e Bruno Aquino, do portal Cervejas do Mundo), pude descobrir e visitar alguns pontos de interesse para os amantes de cerveja e compartilho com vocês um breve roteiro para quem for visitar Lisboa!

 

El Corte Inglés

Devo confessar que, durante os dois meses em que morei em Lisboa, eu bati carteirinha no El Corte Inglés, que é uma enorme loja de departamento próxima à estação São Sebastião de metrô. A parte que nos interessa fica no subsolo: o supermercado da loja possui uma ótima seleção de cervejas importadas, com destaque para uma boa variedade de belgas, além de algumas norte-americanas, alemãs e inglesas. Os preços são os melhores que você encontrará na capital. Há mais alguns rótulos escondidos nas adegas climatizadas do empório da loja, mas o grosso fica nas prateleiras do supermercado mesmo. Não deixe de visitar também as seções de vinhos e queijos regionais. Uma ótima descoberta que a loja me proporcionou foi a belga Gulden Draak, uma excelente dark strong ale que se encontra irregularmente no Brasil. Decididamente doce, pesada, oleosa e licorosa, ela equilibra sua sensação de doçura com uma gostosa picância de especiarias e álcool, como em um licor. Tem aroma complexo, em que o forte caramelado do malte é enriquecido com especiarias (alcaçuz, canela) e um perfil frutado lembrando cereja e vinho. Não sei se fiquei sugestionado pelas bebidas locais, mas ela me sugeriu vivamente a ginja, um licor de cerejas que é típico de Portugal.

Diversidade de rótulos importados no El Corte Inglés. Sim, aquela vermelhinha no canto inferior esquerdo é uma legítima Brahma!
Fonte: acervo pessoal Alexandre Marcussi

 

Cruzamento das avenidas António Augusto de Aguiar, Marquês de Fronteira e Sidónio Pais.
[email protected]
Horários de funcionamento: seg.-qui.: 10:00-22:00; sex.-sáb.: 10:00-23:30; dom. e feriados: 10:00-20:00
http://www.elcorteingles.pt/

 

British Bar

O British Bar é um pub de estilo britânico que consta ter sido no passado um reduto de marinheiros, ao lado do Cais do Sodré e bem próximo do centro histórico e turístico de Lisboa. Tem ambiente despretensioso e mesas de madeira onde lisboetas e turistas convivem durante o happy-hour, além do balcão de onde saem chopes belgas e locais. O destaque da casa são os rótulos da tradicional cervejaria inglesa Samuel Smith – o bar não cobra barato por eles, mas oferece a maior seleção da marca na cidade. Quando estive lá, tive a oportunidade de provar a excelente Samuel Smith’s Imperial Stout, uma stout imperial bem britânica, para nos relembrar como era o estilo favorito dos russos antes do extremismo das interpretações norte-americanas. Com 7% de álcool, destaca-se pela incrível sensação na boca, com corpo impecavelmente cremoso, e pela doçura bem equilibrada pelo amargor secundário. Chocolate e bananas passas escoltam nuances mais sutis de torrefação (café, caramelo, queimado) e um elegante lúpulo inglês (terroso, flor de laranjeira). Uma imperial stout muito gentil, acolhedora, que não agride nem um pouco.

Fachada do British Bar ao entardecer.
Fonte: acervo pessoal Alexandre Marcussi

Rua Bernardino da Costa, n. 52
Telefone: +351 213 422 367
Fecha aos domingos

 

O’Gilins Irish Pub

Um simpático pub irlandês localizado próximo ao Cais do Sodré, talvez a uns 100 ou 200 metros do British Bar. O ambiente é aconchegante, com mesas de madeira e um bem-vindo jazz ao vivo em algumas noites. O carro-chefe da casa é o chope Guinness, como não poderia deixar de ser, mas há outras opções, como as belgas Duvel e Chimay Bleue (precisa mais?). A cada cerveja pedida, o bar oferece, como cortesia, uma “tapa”, ou seja, um pequeno tira-gosto. Aproveitei minha visita para revisitar a clássica Duvel: a cerveja que deu origem ao estilo Belgian golden strong ale é diabolicamente fácil de beber, leve, seca, aromática e fresca, lembrando de longe um bom espumante. Florais e apimentados típicos dos lúpulos Saaz e Styrian Golding combinam-se com frutas frescas (peras, banana, laranja), enquanto o corpo leve e seco e o amargor delicado potencializam a drinkability. Um clássico, imperdível para qualquer apreciador de cervejas.

Fachada do O’Gilins Irish Pub.
Fonte: acervo pessoal Alexandre Marcussi

Rua dos Remolares, n. 8-10
[email protected]
http://www.irishpub.com.pt/

 

Taberna da Rua das Flores

No elegante bairro do Chiado, na parte alta, fica um restaurante e mercearia de aparência charmosamente rústica, que opta por dar destaque aos produtos artesanais e tradicionais da cozinha e da baixa gastronomia portuguesa. Daí possivelmente o fato de ser o único lugar da capital em que eu consegui encontrar cerveja artesanal portuguesa – especificamente, a Sovina. Aproveitei minha visita para degustar a dry stout da cervejaria, acompanhada de um couvert com azeitonas, pães e azeite português. A Sovina Stout tem problemas de fabricação típicos de microcervejarias recém-instaladas, ainda em fase de adaptação das receitas caseiras para o equipamento industrial (me lembrou algumas caseiras e artesanais no Brasil há uns 4 ou 5 anos atrás). Apesar disso, mostra seu potencial com um perfil bem diversificado de sabores de torrefação, iniciando o gole com um chocolate que dá lugar a café e cinzas em um final bem seco, típico do estilo. O corpo é leve para médio, e o amargor predominante é perturbado por uma certa acidez lática que prejudicou sua pureza. Valeria conferir como andam os novos lotes da Sovina Stout.

É fácil perder a discreta fachada enquanto se galga a íngreme ladeira.
Fonte: acervo pessoal Alexandre Marcussi

Rua das Flores, n. 103
Telefone: +351 213 479 418
Horário de funcionamento: seg.-sex.: 12:00-24:00; sáb.: 16:00-24:00

 

Café Medeia

No shopping center Dolce Vita, ao lado da estação Saldanha do metrô, funciona o cinema Medeia, cujo restaurante e café, bem ao lado das bilheterias, é um dos melhores lugares para curtir uma boa cerveja em Lisboa. O cardápio conta com lanches, pratos e porções para acompanhar uma carta de cervejas extensa para os padrões lisboetas, que inclui rótulos belgas, ingleses e alemães a bons preços. Perfeito para um copo de boa cerveja antes da sessão de cinema. Aproveitei minha visita para provar mais um rótulo da inglesa Samuel Smith, a Samuel Smith’s India Ale, uma IPA leve e harmoniosa, que prima pela interação afinada entre o malte ricamente acastanhado e o lúpulo delicadamente britânico, trazendo frescor frutado e floral para acompanhar o terroso-apimentado típico das variedades inglesas. A doçura do malte equilibra o amargor, que predomina sem muita intensidade no início e no residual. Uma IPA bem equilibrada, na qual os fanáticos por lúpulo talvez sintam falta de mais amargor.

Centro Comercial Monumental Dolce Vita
Avenida Fontes Pereira de Melo, n. 51
Telefone: +351 213 143 396
Horários de funcionamento: 12:30-24:00

 

República da Cerveja

Trata-se de um “pseudo-brewpub”, restaurante e cervejaria que tem uma linha exclusiva de chopes que, no entanto, não é produzida pela casa, mas sim encomendada para a Unicer, a mesma companhia que produz a lager de massa Super Bock. Localizada no Parque das Nações, longe do centro turístico e em uma área em modernização, tem um amplo e agradável deck à beira do Tejo, onde se podem degustar porções, sanduíches e os chopes da casa. Há ofertas sazonais que pareceram ser bastante interessantes, como uma lager forte de natal e uma cerveja com maltes de uísque turfados, mas não estavam disponíveis no verão, quando visitei o local. Pude provar a República da Cerveja Puro Malte, uma lager clara um pouco mais intensa, bem no perfil de uma Vienna lager mais clara, bastante doce, com notas expressivas de mel acompanhadas de um certo frutado remetendo a abacaxi e um floral de lúpulo bastante convencional. De corpo intenso, pesada, ela é saborosa mas um pouco enjoativa, não pedindo um segundo copo.

No calor, a pedida são as mesas colocadas do lado de fora.
Fonte: http://www.wingmanid.com

Jardim das Tágides, lt. 2.26.01, Parque das Nações
[email protected]
Telefone: +351 218 922 590

 

Cervejeira Lusitana

A Cervejeira Lusitana é uma rede de lanchonetes com várias unidades na região de Lisboa, que serve uma linha exclusiva de chopes e cervejas produzidos sob licença pela Unicer. A unidade que visitei fica no shopping center Vasco da Gama e tem o ambiente meio “pasteurizado” de um típico restaurante de shopping, com serviço um tanto confuso e o incômodo vai-e-vem dos passantes que visitam lojas e a praça de alimentação. A linha de chopes e cervejas inclui alguns poucos produtos que saem do lugar-comum, como a Lusitana Spicy, pesadamente aromatizada com gengibre e pimenta malagueta, e a Cervejeira Lusitana Weizen Dunkel. Esta é uma cerveja de trigo bávara escura de baixa tipicidade, adaptada para o paladar do consumidor português médio, que parece ter sido pensada como uma variação do clássico “chope escuro” adocicado, com maior acidez e corpo e algum aroma frutado complementar. O cravo-banana típico do estilo fica um pouco apagado diante do acastanhado e caramelado do malte, mas ela ainda tem alguma complexidade aromática interessante.

Centro Vasco da Gama, lj. 3029
[email protected]
Telefone: +351 218 968 162
http://www.lusitana.com/

 

Museu da Cerveja

O recém-inaugurado Museu da Cerveja fica na Praça do Comércio (também conhecida como Terreiro do Paço), bem no coração do centro turístico da cidade, às margens do Tejo e de frente para as imponentes arcadas construídas pela monarquia no século XVIII. No térreo, funciona um restaurante-cervejaria em que frutos do mar são escoltados pelo chope exclusivo da casa, em três estilos (American lager, dark American lager e Vienna lager, todos produzidos pela Sociedade Central de Cervejas e Bebidas, a mesma que produz a Sagres), e por rótulos de Portugal, das ilhas atlânticas e de alguns países de língua oficial portuguesa, como Brasil e Angola. Os aficionados lisboetas tinham esperança de ver no Museu da Cerveja alguma cerveja artesanal brasileira, mas o cardápio só apresenta Brahma e Skol. A maior atração é o piso superior, onde funciona uma instituição museológica dedicada à história da cerveja nos países lusófonos, sobre a qual já comentei aqui. A cerveja servida ao final da visita ao museu, a Cerveja do Museu Bohemia, apesar do que o nome sugere, não é uma Bohemian pilsner, estando mais para uma Vienna lager forte, bem adocicada e frutada, com uma combinação de caramelo e maçãs vermelhas e um final levemente amargo para equilibrar sua doçura.

Fachada do Museu da Cerveja, com mesas na calçada.
Fonte: acervo pessoal Alexandre Marcussi

Terreiro do Paço, Ala Nascente, n. 62-65.
[email protected]
Telefone: +351 210 987 656
Horário de funcionamento: 09:00-02:00
http://www.museudacerveja.pt/

 

Pastéis de Cerveja

Por esta eu não esperava. É sabido que um dos doces mais tradicionais da culinária portuguesa é o pastel de nata, cujos representantes mais famosos e tradicionais são servidos quentinhos nas pastelarias do bairro de Belém (não ignore o excessivamente turístico Pastéis de Belém, ao lado do Convento dos Jerônimos, mas aventure-se pelo bairro procurando as pastelarias menores e poderá ter boas surpresas). E uma pastelaria do bairro, chamada simplesmente Pastéis de Cerveja, em homenagem ao seu carro-chefe, especializou-se num produto que une essa especialidade portuguesa ao nosso querido fermentado de cevada. Trata-se de um curioso pastel que leva cerveja como ingrediente, com recheio que parece ser feito com ovos e cerveja lager clara e uma suave cobertura de amêndoas. É uma das poucas comidas que já provei em que realmente se pode uma cerveja tão leve quanto uma American pilsner, mostrando um sabor de malte fresco e uma doçura de cerveja oxidada (como aquela que fica no copo de um dia para o outro) que, no contexto do pastel, caiu como uma luva. A pastelaria serve, para acompanhar, o chope Super Bock, que fornece uma boa harmonização por semelhança. O dono da pastelaria parece absolutamente alheio ao fato de que existem outros estilos cervejeiros que ele poderia usar para variações do seu pastel, mas eu não pude deixar de imaginar o que seria um pastel de cerveja feito com uma porter, uma Münchner dunkel ou uma dubbel.

Impossível não sacar qual a especialidade da casa.
Fonte: acervo pessoal Alexandre Marcussi

Rua de Belém, n. 15
Telefone: +351 213 634 338
http://www.facebook.com/PasteisDeCervejaDeBelem

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alexandremarcussi

* Alexandre Marcussi é sommelier de cervejas pelo SENAC/Doemens Akademie e historiador especializado em História Cultural. Acredita que a cerveja e a cultura se complementam deliciosamente, e põe este princípio em prática em seu blog O Cru e o Maltado

 

 

Visita à Cervejaria Wäls

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por Alexandre Marcussi*

Aproveitei o último feriadão do dia 15 de novembro para viajar a Belo Horizonte a convite de um grande amigo de infância que as vicissitudes da vida separaram de mim no colegial. Como, por coincidência, esse meu amigo faz cerveja em casa, achei que o reencontro seria a oportunidade perfeita para conhecermos a fábrica da Wäls – que foi eleita no início de 2012 como a melhor cervejaria da América do Sul no South Beer Cup e que, sem fazer muito mistério, é uma das minhas cervejarias nacionais preferidas.

A Wäls iniciou suas atividades em 1999, produzindo chopes para uma rede de bares e lanchonetes da família Carneiro, proprietária também da cervejaria. Por muitos anos, a Wäls produziu apenas o clássico dueto de American lagers, uma clara e uma escura. Uma primeira tentativa de produzir estilos mais ousados, ainda no início da década de 2000, não teve boa receptividade do público. Era preciso esperar o momento oportuno, aquele em que, para parafrasear Maquiavel, a inegável virtù dos Carneiro encontraria a fortuna de um mercado mais receptivo à variedade cervejeira. O momento chegou em 2007, quando a cervejaria se alçou em grande estilo ao mercado das cervejas artesanais com o lançamento da Wäls Dubbel. Na época, tratava-se de uma receita pioneira, a primeira do estilo no Brasil, e uma das poucas então produzidas em terras tupiniquins seguindo estilos belgas.

Nosso anfitrião Tiago Carneiro, eu, minha querida Amanda e meu amigo Bruno na entrada da Wäls.
Fonte: acervo pessoal

De lá para cá, o portfolio da cervejaria não parou de aumentar: os antigos chopes deram lugar a duas lagers de personalidade, a Wäls Bohemian Pilsen e a X-Wäls, hoje responsáveis pela maior parte das vendas da cervejaria. A linha belga se enriqueceu com a Wäls Trippel, a Wäls Quadruppel, a Wäls Brut (provavelmente a mais ambiciosa das produções da cervejaria) e, mais recentemente, a Wäls Witte e a Wäls 42. No início de 2012, surgiu ainda, em parceria com os cervejeiros caseiros da Dum, do Paraná, a muito aguardada Wäls Petroleum, que faturou medalha de ouro no South Beer Cup. E não parou por aí: a Wäls está preparando para o final de 2012 ou início de 2013 o lançamento de mais um rótulo, desta vez em colaboração com a Brooklyn Brewery, de Nova Iorque: a Saison de Caipira, que levou caldo de cana na composição e que será vendida simultaneamente no Brasil e nos EUA. De dois para dez rótulos, em 5 anos. E não param os experimentos para possíveis novas cervejas.

Os tanques de fermentação e maturação da Wäls.
Fonte: acervo pessoal

Babação de ovo à parte, vou contar o que pude conferir na visita à fábrica.

Continuar lendo ‘Visita à Cervejaria Wäls’

Viagem cervejeira a Denver, Colorado

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por Sergio Curti *

Missão Denver, Colorado, 2012

Este é o meu relato de uma experiência única na vida de um cervejeiro, minha viagem à região das montanhas nos Estados Unidos, mais precisamente ao Colorado. A missão era conquistar o Great American Beer Festival (GABF), mas foi muito além disso.

Chegamos em Denver em uma quarta-feira (eu e um amigo que viajou comigo) fomos ao Hard Rock Café para uma das “obrigações turísticas” e para meu espanto não tinha apenas as cervejas normais mas sim uma dúzia de ótimas opções de cervejas na pressão (on-tap). Dividimos 4 pints para acompanhar os excelentes hamburgueres. Destaque para a Alaskan Baltic Porter.

No dia seguinte fomos buscar o Jon (nosso amigo gringo) no aeroporto e após alguns desvios fomos ao brewpub Bull & Bush Pub & Brewery. Chegando lá na hora do almoço, para nosso espanto, havia um aviso na porta alertando que em 41 anos de existência a cozinha deles merecia um descanso e estava em reforma. Oque fazer se a fome já apertava e só tinha cerveja? Mas já lá dentro vimos as pessoas comendo e embalagens sobre as mesas. Foi quando perguntamos para a garçonete que ela veio com vários cardápios de delivery e falou para ficarmos à vontade para pedir o que quiséssemos. Problema da comida resolvido com alguns saborosos sanduíches de carne estilo Philadelphia para acompanhar os 9 pints que dividimos entre nós três. Destaque para 41st Anniversary Imperial IPA.

Bull & Bush Pub & Brewery – Jon, Rodrigo e eu (esq. para dir.)

Na volta do brewpub para o hotel paramos no mercado Whole Foods que costuma ter ótimas cervejas. Mas novamente para nosso espanto no estado do Colorado não se vende cerveja no Whole Foods. Perguntamos onde poderíamos encontrar boas cervejas e indicaram uma Liquor Store do outro lado da avenida chamado Colorado Liquor Mart. Chegando lá dentro, parecia o comercial do closet da Heineken, fomos direto para uma câmara fria cheia de excelentes cervejas americanas e estrangeiras. Saímos de lá com 15 garrafas e 3 copos para tomarmos no hotel em mais de uma ocasião. Abrimos 7 delas após descansarmos um pouco no hotel. Destaque da primeira leva para a RIS islandesa chamada LAVA.

Colorado Liquor Mart – dentro da câmara fria

Na sexta demos um descanço para o nosso amigo fígado pois às 17:30 começaria a batalha principal, o GABF. Detalhe para o dia: dia das crianças… mas o GABF não é para criança não, mas para mim era como um parque de diversões. Só fomos almoçar no Yard House com boa comida e umas 80 torneiras, mas só tomei um half-pint da Avery IPA.

Chegando ao Colorado Convention Center com a van do hotel pouco antes das 17:00 entramos na fila para o evento. Notamos algumas pessoas fantasiadas já em clima de festa, e várias pessoas com colares de salgadinhos pretzels (idéia engenhosa já que não pode levar comida, mas isso é permitido). Fila andando, recebemos o “livro” com a lista das cervejarias e as cervejas presentes no GABF com espaço para anotar as que degustarmos. Entramos com identificações e ingressos na mão, pegamos a pulseira do BA e também o copinho de acrílico (com a marca de 1 oz) apresentando o ingresso.

Great American Beer Festival – Kit pulseira, copo e catálogo

Minha informação era que o evento reuniria uma das maiores concentrações de voluntários para trabalhar na organização e realmente tinha muita gente ajudando e organizando. Tinha também muitos bebedouros com galões de água para os intervalos entre as degustações e banheiros o suficiente para dar conta de tanto diurético. Detalhe para o público feminino que compareceu bem ao evento evitando aquela sensação ruim de “Mundo de Marlboro” (onde ELES se encontram). E o público em geral notavasse que eram mesmo norte americanos.

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