Clássico trapista dos monges da abadia de Notre Dame de St. Remy, que se destaca por um bem-resolvido balanço de características delicadas e rústicas num balé bem sincronizado sob o imponente manto do malte típico do estilo. Vertida na taça, ela apresentou uma coloração castanha sólida, opaca e com partículas em suspensão, em que pesou certamente o fato de a garrafinha ter viajado antes de ser servida, colocando em suspensão o depósito de fermento. O creme formou-se bege, denso e volumoso. Aroma e sabor são congruentes na sua complexidade e na proposta, observando-se talvez apenas uma diferença no foco, com o sabor gravitando mais em torno do malte, que traz um sólido caramelado dominante bem apoiado por um suave torrado doce, remetendo a chocolate ao leite. Sente-se uma marcante rusticidade meio salgada, de madeira seca e talvez até um toque de molho inglês, complementada por uma delicadeza frutada e floral, com notas de uvas passas, um perfume semelhante a lírios, maçãs vermelhas e um toque de mamão papaya. Eu também sinto essa marcante combinação de lírio e papaya na Rochefort 10, mas aqui ela se apresenta não apenas mais suave como também um pouco ocultada pela rusticidade amadeirada – o que a torna talvez menos marcante e bem-resolvida do que sua “irmã maior”, mas também talvez mais surpreendente. O paladar é complexo e equilibrado, com uma doçura maltada levemente dominante e bem complementada por um salgado de entrada e um amargor robusto de fundo, conduzindo a um final com doçura e amargor equilibrados e retrogosto de caramelo, madeira, uvas passas e um sutil terroso, possivelmente da levedura em suspensão – poderia talvez ser melhor se fosse mais limpo. A carbonatação é mediana e o corpo é denso, com textura aveludada, mas o álcool aparece talvez um pouco mais do que poderia. Elegante em sua complexidade, esta é uma cerveja de personalidade marcante, que não te deixa ficar indiferente mas também não te agride, equilibrando sua inocente exuberância frutada e perfumada com uma certa austeridade amadeirada que contém seus excessos de jovialidade e apresenta um conjunto versátil sem ser neutro – clássico.