Cerveja pura por lei

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reinheitsgebot

por Daniel Ramiro*

Todos que gostam de apreciar uma bela cerveja a fazem de maneira integral: não só degustam-na com a boca, mas também com os olhos. E o olhar se desdobra à coloração, à espuma e à garrafa. Claro, o rótulo e a garrafa são importantes na venda do produto e, sobretudo, em seu consumo. As imagens não estão lá apenas para preencher espaço; dizem muito sobre a cervejaria e seu produto. As informações sobre estilo, graduação alcoólica e ingredientes fazem com que tenhamos uma noção prévia de como a cerveja se comportará na devida taça.

Em alguns rótulos podemos ler “Feito sob a Lei de Pureza Alemã”, ou algo parecido, fazendo uma menção a Reinheitsgebot. Há uma versão lúdica no imaginário popular que a coloca como expressão de uma insatisfação do duque da Baviera quanto à qualidade duvidosa das cervejas locais. Assim, Guilherme IV, ao acordar com uma grande ressaca, principalmente em vista das especiarias e demais ingredientes que eram colocados nas cervejas para aromatizá-las e dar sabor, resolveu estabelecer uma lei que restringia os ingredientes a serem usados na produção cervejeira em água, cevada e lúpulo (a levedura ainda não tinha sido “descoberta/inventada” nessa época).

Falta de trigo motivou a Lei de Pureza

Com essa lei, não era mais permitido o fabrico de cervejas de trigo, por exemplo. Mas, na verdade, o duque da Baviera Guilherme IV estava diante de um conflito maior: o suprimento de trigo no início do século XVI não estava sendo satisfatório para aquela região. Assim, cervejeiros e padeiros

Duque Guilherme IV: Ressaca?

Duque Guilherme IV: Ressaca?

 disputavam o grão. Até então, a cerveja de trigo era muito comum na região alemã, mas a partir de 23 de abril de 1516 este produto foi restringido. A lei proibia o uso de qualquer grão exceto cevada – pois não era um grão agradável para fazer pão. Mas nem todos da região bávara tiveram tal impedimento.

Em 1589, foi construída a Hofbräuhaus München a mando de Guilherme V, então duque da Baviera. A partir de 1602, esta passou a ter o monopólio da produção de cerveja de trigo. Detalhe: esta cervejaria, que hoje é um dos lugares sagrados – e de peregrinação obrigatória – para os apreciadores de boas cervejas, havia sido criada para abastecer a corte do duque. Tal monopólio foi findado apenas em 1806, momento de legalização da cerveja de trigo.

A Reinheitsgebot deu visibilidade de qualidade às cervejas bávaras e, por isso, foi incorporada por outras regiões germânicas. Atualmente, esta lei deixou de existir, mas seu legado, porém, foi atestar uma qualidade simbólica às cervejas que foram produzidas, segundo suas cervejarias, com base nessa norma. Fato é que nem todas as cervejas que têm essa impressão em seus rótulos são realmente de qualidade ou foram fabricadas apenas com água, cevada, lúpulo (e levedura). Pode ser que, por desconhecimento de causa, distração ou puro marketing, haja incompatibilidade nas garrafas ou latas: Lei de Pureza Alemã e ingredientes extras, como antioxidantes, estabilizantes ou corante caramelo. Operando dentro de um simbolismo de qualidade, o uso dessa “lei” deveria ser feito com mais cautela e rigor.

DanielRamiro

 

*Daniel Ramiro é antropólogo, sommelier de cervejas (Doemens/Senac) e professor de História. O artigo acima teve como fonte o blog da Confraria St. George, da qual faz parte

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